quinta-feira, 14 de maio de 2015

Noah*

Sempre que penso nesta música, eu penso em você...


Sua cestinha de basquete quebrada e a guitarra da qual você jamais ouviu o som (e que também quebrou) foram os últimos rastros da sua bagunça pela casa. E doeu vê-los ali sem ter você por perto.

A casa finalmente está mais silenciosa, também está mais arrumada. Não tem brinquedos espalhados pelo chão, nem farelo de biscoito em cima do sofá. Esperei tanto pelo tempo em que isso iria acontecer... Só não pensei que pudesse ser tão doloroso! Achei que seria fácil.

Sinto falta da correria, dos risos, das mãozinhas puxando meu braço, me pegando pela mão e me levando até onde você queria que eu fosse. Sinto falta dos gestos que eu te ensinava, mas especialmente dos que eu aprendia com você.

(Pausa para chorar)

A Televisão finalmente está disponível para quem quiser assistir ao noticiário, ou a qualquer outro programa de adultos. Não está mais monopolizada pelos mesmos desenhos animados repetidos que você gosta de assistir durante o dia todo, todos os dias. Mas eu daria tudo para não ter vez com a TV, só pelo fato de saber que é você quem manda nesta casa e assim, deixá-lo assistir ao que você quisesse.

Como posso sentir falta do som da voz de alguém que nunca aprendeu a falar? Como não consigo imaginar minha vida sem a presença de alguém que há tão pouco tempo sequer existia? Penso como eu conseguia viver sem você, antes de você nascer... Como você pôde mudar tanto a minha vida?

A tranca mais alta do portão me faz lembrar você... Ela foi posta lá por sua causa. Quando você já estava começando a alcançar o trinco mais baixo e fugindo para a rua.

O velotról imóvel no canto do quintal me fez chorar por não ter você aqui... 

Você foi pra longe sem nem saber que ia, nem para onde ia. Como te explicar? Você ainda não tinha me ensinado a me despedir em libras! Mas, sabe de uma coisa? Eu não quero aprender! Prefiro ter você pra sempre por perto, pra nunca ter de me despedir. Mesmo que o mais próximo que você esteja de mim, seja em meu pensamento.

Será que você sabe que eu te amo?

Por tantas vezes que eu disse ("Te amo") e você nunca pôde ouvir... Mas, acredito que sentiu (e sente) o quanto eu amo você. Por todos os abraços apertados que eu te dei (mesmo a contragosto), pelas lutinhas de chinelo que tivemos, pelas brincadeiras, pelos desenhos que assistimos juntos...

É...

Eu sinto que você sabe...

E como você me faz falta!

Te amo, Noah*!

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* Noah é meu sobrinho-neto e afilhado, de 3 anos de idade. Foi constatada nele uma deficiência auditiva e em virtude de um melhor tratamento, ele e sua família (mãe, pai e avós) se mudaram para a cidade de Concórdia, em Santa Caratina. Ele não é uma criança normal, normais são as outras crianças. O Noah é mais do que especial, não por não ouvir e não falar, mas por ser quem ele é (sem tirar nem pôr). É esse jeitinho que marca a vida de quem o conhece.